đ A CARTA QUE NUNCA TEVE CORAGEM DE VOLTAR đ
Tem saudades que chegam devagarâŠ
como quem nĂŁo quer machucar,
mas acabam destruindo tudo por dentro.
E foi numa quinta-feira silenciosa,
dessas em que o coração acorda cansado,
que eu percebi:
existem amores que nunca acabamâŠ
apenas aprendem a morar na dor.
VocĂȘ jĂĄ sentiu falta de alguĂ©m
mesmo depois de tentar esquecer mil vezes?
Porque eu senti.
Senti no café sem gosto,
na mĂșsica tocando baixinho,
na madrugada longa demais,
na cama fria,
no abraço que nunca mais aconteceu.
Senti vocĂȘ em cada detalhe
que o tempo nĂŁo conseguiu apagar.
E o pior de tudo
é que ninguém percebe
o tamanho da guerra
que acontece dentro de quem ama calado.
As pessoas olham e dizem:
âvocĂȘ parece bem.â
Mas ninguĂ©m vĂȘ
as lĂĄgrimas escondidas atrĂĄs do sorriso,
as mensagens apagadas antes de enviar,
o nome preso na garganta,
a saudade sufocando devagar.
Ninguém entende
como dói amar alguém
que jĂĄ nĂŁo pertence mais Ă nossa vida,
mas continua morando em cada pedaço da alma.
VocĂȘ foi emboraâŠ
mas levou partes minhas que nunca mais voltaram.
Levou meu sono.
Minha calma.
Minha paz.
E deixou esse vazio enorme,
essa ausĂȘncia que grita dentro do peito
como um eco interminĂĄvel.
Ăs vezes eu tento seguir,
juro que tento.
Mas basta ouvir aquela mĂșsica,
sentir aquele perfume,
passar naquela rua,
e tudo volta.
Tudo.
A voz.
O toque.
Os planos.
As promessas.
As noites em claro falando sobre o futuro
como se o amor fosse eterno.
E talvez tenha sidoâŠ
Porque algumas pessoas vĂŁo embora do mundo da gente,
mas nunca saem do coração.
VocĂȘ virou lembrança,
mas daquelas lembranças perigosas,
que machucam sĂł de existir.
E eu continuo aqui,
colecionando silĂȘncios,
guardando conversas antigas,
revivendo momentos
que talvez sĂł tenham significado algo para mim.
Quantas vezes eu quis te esquecerâŠ
Mas como esquecer alguém
que virou parte da prĂłpria existĂȘncia?
VocĂȘ estava nos meus planos mais bonitos.
Nos sonhos mais sinceros.
Nas minhas oraçÔes silenciosas antes de dormir.
E hojeâŠ
olha sĂł o que restou de nĂłs.
Saudade.
Uma saudade absurda,
dessas que apertam o peito do nada,
dessas que fazem a gente olhar pro teto
tentando entender
onde foi que o amor começou a morrer.
Talvez ele nunca tenha morrido.
Talvez sĂł tenha ficado perdido
entre o orgulho,
o silĂȘncio
e as palavras que nunca tivemos coragem de dizer.
Porque amar também é isso:
carregar cicatrizes invisĂveis.
Tem gente que parte
e leva embora o brilho dos nossos dias.
Tem gente que deixa marcas
que o tempo nĂŁo consegue apagar.
E vocĂȘ deixou.
Deixou em mim
a mania de procurar teu rosto na multidĂŁo,
de imaginar teu nome aparecendo no celular,
de acreditar, por alguns segundos,
que ainda existe volta para aquilo que se perdeu.
Mas algumas histĂłrias
nĂŁo terminamâŠ
elas apenas ficam inacabadas dentro da gente.
E talvez seja isso que mais dĂłi.
NĂŁo foi o adeus.
NĂŁo foi a distĂąncia.
NĂŁo foi o silĂȘncio.
Foi perceber
que existia amor,
mas nĂŁo existiu permanĂȘncia.
E desde entĂŁo,
eu carrego esse sentimento estranho
de ter perdido alguém
que ainda mora inteiro dentro de mim.
Tem noites
em que a saudade pesa tanto
que parece faltar ar.
Noites em que eu converso com Deus em silĂȘncio
pedindo força
para esquecer quem meu coração insiste em lembrar.
Mas o coração é teimoso.
Ele guarda detalhes.
Datas.
Olhares.
Promessas.
Ele transforma lembranças
em tempestades.
E eu me pergunto:
serĂĄ que em algum momento
vocĂȘ tambĂ©m sentiu minha falta?
SerĂĄ que em alguma madrugada qualquer
meu nome atravessou teus pensamentos
como vocĂȘ atravessa os meus?
Ou fui apenas eu
quem transformou amor em eternidade?
Porque aqui dentroâŠ
vocĂȘ nunca foi passageiro.
VocĂȘ foi morada.
E talvez seja exatamente por isso
que ainda dĂłi tanto.
Existem amores
que nĂŁo nasceram para durar,
mas nasceram para marcar.
E vocĂȘ marcou minha alma
de um jeito que ninguém mais conseguiu.
Hoje eu entendo:
a saudade mais cruel
nĂŁo Ă© daquela pessoa que morreuâŠ
Ă© daquela que continua viva,
mas distante demais
para voltar.
E mesmo assim,
em algum lugar escondido do peito,
eu ainda te espero.
Mesmo sabendo
que certas esperas
sĂŁo apenas formas silenciosas
de continuar sofrendo.
âPaulinha Cunhaâ
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