A Casa Onde Minha Alma Foi Quebrada
Eu me lembro do canto onde eu encolhia o corpo,
como quem tenta caber dentro do próprio medo.
A parede áspera era minha única testemunha,
meu abrigo torto, meu confessionário silencioso,
meu cúmplice mudo de tanta dor engolida.
E sempre vinha ele.
A sombra antes do corpo.
A ameaça antes da voz.
A escuridão antes do toque.
E eu me perguntava, quase sem ar:
Por quê?
O que eu fiz de errado?
Por que dói tanto existir nesse lugar?
Por que ninguém me escuta quando eu imploro?
Eu chorava baixinho,
como quem tem medo até do som da própria respiração.
Meu corpo tão fraco, tão pequeno para conter tanto medo,
tão frágil que parecia vidro rachado,
pronto para se despedaçar no próximo grito,
no próximo empurrão,
na próxima promessa de dor.
Eu implorava.
Juro que implorava.
“Para, por favor… para… isso dói… me deixa… por favor…”
Mas a minha voz era uma sombra a mais na casa,
fina demais, triste demais, inútil demais.
E eu perguntava ao teto,
à parede,
à poeira,
a qualquer coisa que me ouvisse:
“Por que ninguém me protegeu?”
“Por que o mundo virou o rosto?”
“Por que a vida me colocou aqui, nas mãos dele?”
Meu corpo crescia,
mas minha alma diminuía.
Cada ano era uma nova rachadura,
um novo silêncio aprendido,
uma nova pergunta sem resposta.
E mesmo agora, adolescente,
mesmo agora com o rosto mais velho
e o coração ainda mais moído,
eu sinto a sombra dele atrás de mim,
como se ainda respirasse no meu pescoço,
como se ainda pudesse me silenciar com um olhar.
Eu carrego dentro de mim a menina que ajoelhava no canto,
a menina que torcia para desaparecer,
a menina que tentava entender
por que o amor na minha casa
tinha mãos pesadas,
voz dura,
olhos vazios.
Ainda me pergunto, com um nó na garganta:
“Por que eu?”
“Quando é que a dor decide ir embora?”
“Quando é que o medo sai do meu corpo?”
“Quando eu vou conseguir dizer que sobrevivi?”
Hoje sou quebrada,
mas não por escolha.
Sou costurada por dentro com cicatrizes invisíveis,
sou feita de restos da menina que tentei proteger,
sou feita de fragmentos de uma infância que não tive,
sou feita de gritos que engoli
para não piorar as coisas,
sou feita de noites em que só o silêncio me abraçou.
E às vezes ainda me vejo ali,
naquele canto,
de joelhos,
tremendo,
esperando que alguém me encontre,
que alguém diga
que eu não merecia aquilo,
que eu não nasci para carregar essa culpa,
que minha dor não foi escolha,
que a violência dele não define quem eu sou.
Mas a verdade é que eu cresci
com perguntas que ninguém respondeu:
“Quando acaba?”
“Quando eu vou ser alguém além da vítima?”
“Por que a minha infância foi arrancada de mim?”
“Por que o amor nunca veio?”
Eu, que só queria paz,
ganhei memórias que queimam.
Eu, que só queria carinho,
ganhei mãos que feriam.
Eu, que só queria existir,
aprendi a sobreviver.
E ainda hoje,
quando a noite cai pesada sobre meus ombros,
eu fecho os olhos e sinto a velha sombra dele,
mas agora eu digo, mesmo com a voz fraca:
“Você não manda mais em mim.”
Mesmo que por dentro
eu ainda esteja segurando a menina quebrada
que eu um dia fui.
Mesmo que eu ainda sangrando em silêncio.
Mesmo que o passado ainda me acompanhe.
Eu sigo.
Com minhas rachaduras.
Com minhas perguntas.
Com meu corpo cansado.
Com minha alma remendada.
Porque, no fim,
apesar de tudo,
eu ainda estou aqui.
Autoria_lady_obscura
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A Casa Onde Minha Alma Foi Quebrada