A criança velha
E a criança chorou.
Já não tão inocente,
já não tão próxima do desabrochar —
mas perto, muito perto do amadurecer.
Perto das nuances
de caminhar só.
A criança já velha,
que de criança
guardava apenas memórias escuras.
Chorou.
Desabou.
Nas coxas, filetes em carmesim —
esses que já não doíam
ao finalmente chegar
o amadurecer.
Ao menos,
era o que parecia.
As asas, enfim, bateram,
soprando um vento
com gosto de liberdade.
Liberdade que doía tanto
que os filetes carmesim
mal ardiam —
quem dirá doer.
No meio do desespero, desamparado,
veio o desabrochar
e o amadurecer.
Sempre manchado de sangue.
Carmesim e sal fizeram sua história.
O sal que descia
em bela cachoeira
pelos seus olhos —
belos olhos,
já apagados
do brilho da alegria.
Olhos que faziam
da criança, velha.
Como poderia ser tão nova
e tão calejada?
A criança tola
não sabia nem sofrer.
De tanto lhe ensinarem
a se ferir,
aprendeu.
E a si mesma,
se feria ao sofrer.
Como poderia ser diferente,
se foi isso
que lhe deram a vida inteira?
O sofrer.
De tanto desamparo,
aprendeu a se calar.
De tanto gritarem,
a criança ficou muda —
muda do sentir.
Não sabia sentir.
Ora sentia demais,
ora de menos,
ora não sentia nada.
Doía a liberdade,
essa que exigia o afastar
daquilo que acreditava mais amar.
Daquilo que era devota:
família.
Soava como mentira.
Ah, como sofria
ao se desentender
se tudo aquilo em que acreditava
doía.
E o carmesim tornava visível
o que o sentir não mostrava.
Doloroso.
A criança velha
agora completa
vinte e cinco primaveras.
E como dói
o bater das asas.
Como dói
ansiar por liberdade.
Como fere
sentir o desamparo.
A criança que se sentia velha
assim se fez
pelo desamparo.
Pelo implorar
do amor mais simples —
o amor que vem do berço.
Amor, para ela, inexistente.
Amor que lhe trouxe dor.
Desacredita agora na família.
A criança velha —
não de corpo,
mas de pensar,
de responsabilidade.
Cresceu cedo demais,
para caminhar,
para sobreviver.
A criança velha,
que no rosto não mostrava a idade,
mas na alma
já a havia ultrapassado.
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