A Fita.
Hoje eu quis me rasgar
Não por dor, não por sangue, mas por divisão
Eu queria ser duas, duas de mim
Uma que não soltasse a mão da minha mãe e outra que segurasse a mão do meu pai
Porque não tem como jogar em dois times quando a arquibancada exige que você grite por um lado só
E se eu fosse duas, talvez desse
Talvez eu pudesse amar os dois sem parecer traição
Minha casa não tem paredes, tem uma fita no chão
Metade pra cá
Metade pra lá
Como um desenho animado de guerra por território no dormitório compartilhado — e minha mãe ficou com o banheiro
E eu?
Fico no meio da linha
É errado não querer defendê-la da mesma forma que meu irmão cegamente defende?
É errado não querer apontar o dedo quando dizem que meu pai tá sempre errado?
Eu não quero escolher
Eu nunca quis escolher
Sempre fui alguém que fica em cima do muro
Isso é ser duas caras?
Talvez seja
Talvez eu queira ser, porque é impossível respirar quando te obrigam a viver com metade do pulmão
Eu me rasguei tantas vezes em silêncio.
Não por dor, não por sangue
As palavras simplesmente arranham minha garganta porque eu sei que, se elas escapassem, seria um rasgo pior
É como se seu olhar me despedaçasse
Não,
Seu olhar me tritura lentamente
Mas por que só um pode ser errado?
Por que ninguém admite que às vezes os dois falam merda?
Será que só eu vejo os defeitos de ambos os lados e, ainda assim, as qualidades também?
Pai,
eu não queria lembrar das noites em que te vi chorar na cama enquanto comia doces — é uma das poucas coisas que sei sobre você: você ama doces
Eu não queria carregar isso
Mas eu sou covarde demais pra ficar do seu lado
E covarde demais pra dizer que estou do lado dela
Eu só aprendi
a parecer que sempre estive em ambos os times sem deixar muito explícito
Ninguém pode saber que eu piso na fita que rege as regras.
— A fita.
B
A Fita.