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Alma Indomável Há em mim um fogo que nenhuma chuva apaga, um rio que se recusa…

Alma Indomável

Há em mim um fogo que nenhuma chuva apaga,
um rio que se recusa a secar nas margens do medo.
Vim de um barro antigo, amassado por mãos que choraram
e ainda assim ergueram catedrais com os dedos quebrados.

Não me peçam para ser pequena.
Não me peçam para caber dentro de molduras
que outros desenharam achando que eu era feita
do mesmo gesso frágil das estátuas de vitrine.

Eu sou tempestade que aprendeu a dançar,
sou raiz que rasgou o concreto pra ver o sol,
sou cicatriz que virou mapa, não sou ferida —
sou o caminho que a dor abriu dentro de mim.

Quantas vezes me disseram: "Assim você não vai longe."
E eu fui. Fui sem mapa, sem bússola, sem promessa de chegada.
Fui porque parar era a única coisa que eu não sabia fazer,
fui porque dentro do peito havia um motor que ninguém desligava.

Minha alma não nasceu domesticada.
Ela veio do ventre já sabendo que o mundo tenta
colocar coleira em tudo que é livre,
tenta nomear de "loucura" o que é apenas verdade demais.

Eu já fui silêncio engolido,
já fui "não exagera", já fui "se acalma",
já fui voz baixa em sala cheia,
mas há um ponto em que a alma se cansa de pedir licença
para existir do tamanho que ela é.

E foi nesse ponto que eu me encontrei.
Não na vitória fácil, não no aplauso,
mas no instante exato em que decidi
que prefiro arder por inteira
a apagar aos pedaços pra agradar quem nunca me viu de verdade.

Carrego comigo os nomes de quem veio antes,
mulheres que sangraram em silêncio
para que eu pudesse gritar em voz alta,
e por elas — por cada uma —
eu não abaixo a cabeça, eu não diminuo o passo,
eu não peço desculpas por ocupar espaço.

Sou feita de recomeços.
De manhãs em que o corpo doía e mesmo assim levantei,
de noites em que jurei desistir e o amanhecer me provou errada,
de promessas que fiz a mim mesma
no exato instante em que tudo desabava:
eu não vou me apagar pra caber no medo dos outros.

Quem tenta me prender, encontra vento.
Quem tenta me calar, encontra eco.
Quem tenta me quebrar
descobre, tarde demais,
que eu já fui quebrada antes —
e voltei. Sempre volto.
Porque há em mim algo mais antigo que a dor,
mais forte que a queda,
mais teimoso que qualquer tentativa de me quieto.

Chamem isso de teimosia.
Chamem isso de loucura.
Eu chamo de instinto de sobrevivência
vestido de poesia,
chamo de alma que se recusou, desde sempre,
a viver de joelhos.

Eu sou tempestade e sou também a calmaria depois dela.
Sou o grito e sou o silêncio que cura.
Sou a queda e sou, principalmente,
o jeito como me levanto.

E se um dia perguntarem que herança eu deixo,
que digam: ela não se curvou.
Que digam: ela ardeu, mas nunca se apagou.
Que digam, sobretudo, que esta alma
esta alma indomável
escolheu, todos os dias,
ser livre.

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—Paulinha Cunha—