Anjos são monstros.
Sentei-me no meio-fio após um dia cansativo, como quem espera o próximo ônibus
Quando apareceu um anjo, destes que brilham mais do que convém
Trazia um sorriso tão puro que até doía de encarar
E falou com voz de domingo
— Vim só para conversar.
Perguntei se ele sabia porque o mundo anda torto
Ele riu como quem conhece o truque do mágico morto
— Vocês têm o dom da escolha. — disse, ajustando a auréola fina — Mas vivem culpando o destino por cada pedra no caminho da sina.
Respondi com certa ironia — virtude que aprendi com a vida:
— Se nos deram tanta liberdade, por que a bússola vem descalibrada?
O anjo coçou a cabeça, fez cara de quem tenta lembrar e confessou, quase envergonhado
— É que os humanos gostam de errar.
— E vocês gostam de observar. — rebati, cruzando os braços no ar — Se eu fosse anjo, descia na Terra só para tentar ajudar.
Ele sorriu com pena de mim, como um sábio cansado do óbvio
— Rapaz, já tentamos isso antes, mas vocês chamam de milagre só depois do erro.
No fim, ele se levantou
Bateu as asas com ar displicente
— Se quiser um conselho, humano... Erre menos conscientemente.
E sumiu como bruma de inverno, deixando apenas a lição:
Que até anjo perde a paciência tentando entender o coração.
B
Anjos são monstros.