COMPANHEIRA
Hoje, minha velha companheira veio me visitar.
Inconveniente como sempre, entra sem pedir licença,
fica mais do que devia
e parte deixando tudo em ruínas.
Por vezes me torna incapaz:
incapaz de comer,
de dormir,
de tomar banho,
de respirar
— incapaz de viver.
Lembro-me vagamente de quem eu era antes de conhecê-la.
Os dias eram mais claros,
as flores tinham cheiro,
as cores pulsavam,
e a vida… a vida fazia sentido.
Depois dela, tudo virou ciclo.
Entre ser ou não ser.
Estar e não estar.
Querer e não querer.
Viver ou morrer.
Nada mais me prende o suficiente
para que eu queira ficar.
Às vezes tento mandá-la embora,
mas ela é insistente.
Eu cedo por cansaço, por esgotamento.
Deixar que fique parece mais fácil
do que lutar contra ela.
Chamam-me de fraca por isso.
Mas a verdade é que já me acomodei.
Há um conforto estranho nessa escuridão,
um descanso profundo
entre existir e não existir.
É perigoso…
e ainda assim, viciante.
Por fim, velha companheira,
peço apenas isso:
ou me leve de uma vez,
ou me deixe para sempre.
T
COMPANHEIRA