Crueldade em carinho.
Hoje observo a velhice a chegar,
não só em mim,
mas na minha amada e adorada.
A chamemos assim: Amada e Adorada.
São raras as vezes em que sua boca não cuspa espinhos…
tão raras,
tão, tão raras.
Mas lá, entre as raridades, há o carinho.
É este que me engana, me atrai.
É nele que mora o perdão,
a adoração,
a obsessão,
a parafilia do permanecer.
Outrora, enquanto ainda não entendia palavras ou ações,
da minha boca inocente só saíam pedidos suplicados de desculpas.
Súplicas para que parasse.
Tais súplicas que, no chão, se viam os respingos do amor que a Amada oferecia.
Respingos de amor —
não tão vermelhos quanto os do coração,
já que esses se misturavam com a água dos olhos,
escorridos em carmesim e sal.
Vermelhos o suficiente para expor a dor,
e pedaços fatiados de carne.
Assim, a Amada desmontava seu amor:
tão cruel e belo.
Quando meu coração era
inocente,
infantil,
incompreendia o amor que me foi dado,
o castigo oferecido apenas pelo respirar.
Outrora, quando toda parte de mim era inocente,
eu a chamava:
Amada e Adorada
Tão amada,
tão adorada.
Meu eu infantil não enrolava tais palavras em deboche,
não respingava tais palavras em escárnio.
O eu inocente que a amava,
que temia sua chegada,
que desesperava com seu débil mudar de humor.
Hodiernamente, meu eu
cospe tais palavras.
A raiva se acumulou
em tantas,
tais quais as cicatrizes.
Meu eu…
esse que…
não fala mais,
não ama mais.
Esse meu eu,
para quem a sua tão amada, tão adorada,
resta apenas um débil e infeliz chamar:
Chamemo-la de
Mãe.
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