Entre o Fogo do Não-Tocar
O amor que não toca ainda assim queima,
como chama invisível que se alimenta do silêncio,
como um incêndio sem fumaça, sem aviso,
que arde dentro do peito sem pedir permissão.
É um sentimento que não tem corpo,
mas ocupa todos os espaços da alma.
Não tem presença, mas pesa.
Não tem voz, mas grita dentro dos pensamentos
quando a noite cai e tudo parece mais vazio.
O tempo que não existe ainda assim prende,
como se cada segundo fosse uma lembrança futura,
como se o amanhã já tivesse acontecido
e mesmo assim continuasse doendo no agora.
Há amores que não chegam,
mas também não vão embora.
Ficam suspensos entre o talvez e o nunca,
entre o desejo e a impossibilidade,
entre o sonho e a realidade que não se encontra.
E isso machuca de um jeito estranho,
porque não houve adeus,
não houve fim,
mas também nunca houve começo.
E mesmo assim… existe.
Existe na saudade que não tem rosto definido,
na falta que não sabe o nome que deve chamar,
no vazio cheio de memórias que ainda nem aconteceram.
É um amor mal resolvido com o destino,
uma conversa interrompida no meio da frase,
um abraço que nunca encontrou direção,
um olhar que nunca chegou a se cruzar por completo.
E ainda assim… fica.
Fica como se o coração tivesse escolhido esperar,
mesmo sem promessa,
mesmo sem garantia,
mesmo sem volta.
Porque alguns sentimentos não nascem para serem vividos,
mas para serem sentidos até doer.
E doem.
Doem na alma como saudade que não encontra caminho de volta,
como eco de algo que nunca foi dito,
mas sempre foi entendido em silêncio.
E talvez seja isso o amor que não toca:
um infinito preso dentro de um instante,
um incêndio que nunca se apaga,
porque nunca foi apagado.
Ele apenas… continua.
Entre o que não foi e o que nunca será,
mas insiste em existir.
—Paulinha Cunha—
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