Entre o Silêncio e a Libertação
Desde que aprendi a abrir os olhos para este mundo,
tu, pai, foste sombra fria,
uma presença que se escondia no vazio,
uma indiferença que queimava mais que qualquer ofensa.
Cresci engolindo lágrimas,
escondendo meu choro,
aprendendo cedo demais que esperar amor de ti
era esperar vento no deserto: nada chegava, nada vinha.
Não houve abraço,
não houve consolo,
não houve palavras que aquecessem
o frio que deixaste no meu peito.
E eu, menina que sonhava com um pai,
descobri mulher em silêncio,
descobri força em cada lágrima calada,
descobri que carregar teu sobrenome
não é obrigação,
é corrente que eu recuso.
Hoje digo: não és meu pai.
Nunca foste.
Não mereces a palavra que ecoa no coração de quem cuida,
de quem protege, de quem ama.
Meu sangue grita liberdade,
e minha alma escolhe quem merece existir ao meu lado.
Minha mãe, sim, minha mãe —
ela foi tudo que tu nunca foste,
amor em forma de cuidado,
presença que me ergueu quando caí,
luz quando só havia sombra.
Ela é a força que me faz seguir,
ela é lar onde meu coração encontrou abrigo.
Pai, tua ausência ensinou-me algo valioso:
o amor verdadeiro não se obriga, não se finge,
não se compra nem se usa de máscaras.
O amor que tu não deste,
me fez escolher quem merece caminhar comigo.
Então, que este silêncio teu
seja apenas memória,
que teus ecos vazios
não mais encontrem lugar em mim.
Eu renuncio teu nome, renuncio tua história,
renuncio teu espaço.
Eu me reconstruo sem ti,
mais inteira, mais forte, mais minha.
E que fique registrado:
quem me moldou, quem me levantou, quem me fez mulher
não foste tu, pai,
foi ela, minha mãe, minha heroína.
Hoje ergo minha voz,
não em gritos de raiva, mas em liberdade absoluta.
Corto os laços que não me pertencem,
liberto minha essência,
e celebro a vida sem tua sombra.
Porque o amor que não se oferece,
não merece lugar no meu caminho.
E eu, finalmente, aprendo que posso viver inteira,
sem teu peso, sem teu sobrenome,
sem tua indiferença que tentou me aprisionar.
Eu sou inteira,
eu sou luz,
eu sou livre.
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—Paulinha Cunha—
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