Entre RuĂnas, Floresci đșđ€
Houve um tempo em que tudo parecia desabar ao mesmo instante.
NĂŁo foi barulho de explosĂŁo, nem terremoto visĂvel aos olhos do mundo.
Foi silĂȘncio.
Aquele silĂȘncio que quebra por dentro, sem pedir licença, sem anunciar chegada.
Eu era feita de esperas.
E esperas longas demais viram ruĂnas.
Entre promessas que nĂŁo se cumpriram e abraços que viraram ausĂȘncia, eu fui me desfazendo em pedaços que ninguĂ©m viu cair.
Por fora, eu seguia.
Por dentro, eu desmoronava em cĂąmara lenta.
E ainda assim⊠eu permanecia.
Como quem nĂŁo sabe ir embora de si mesma.
As paredes da minha alma aprenderam a guardar rachaduras como segredos antigos.
E cada rachadura tinha um nome.
Cada nome, uma histĂłria que nĂŁo soube permanecer.
Eu tentei ser forte do jeito que o mundo aplaude.
Mas ninguĂ©m aplaude quem sangra em silĂȘncio.
Ninguém percebe o esforço de quem sorri com o peito em guerra.
Foi assim que me tornei ruĂna.
NĂŁo de pedra.
Mas de sentimentos.
E hå uma diferença cruel nisso.
RuĂnas de pedra podem ser visitadas, fotografadas, admiradas.
Mas ruĂnas humanas⊠sĂŁo esquecidas atĂ© por quem um dia jurou ficar.
Eu fui esquecida em vida.
E ainda assim, algo em mim respirava.
Um fio tĂȘnue de insistĂȘncia, talvez fĂ©, talvez teimosia, talvez apenas o instinto de nĂŁo desaparecer completamente.
Foi nesse quase nada que algo começou a acontecer.
Primeiro, o silĂȘncio mudou de textura.
Jå não era só dor. Era espaço.
E espaço, quando bem escutado, vira começo.
Eu nĂŁo percebi no inĂcio, mas entre os destroços, algo pequeno insistia em nascer.
Uma vontade tĂmida de recomeço.
Uma coragem que nĂŁo gritava â apenas ficava.
E eu fiquei com ela.
Havia dias em que eu ainda me sentia quebrada demais para qualquer tentativa de reconstrução.
Dias em que a saudade pesava mais do que o futuro.
Dias em que eu quase acreditava que ruĂnas eram meu destino final.
Mas a vida, silenciosa como sempre, fazia outra escolha por mim.
Ela insistia.
E insistĂȘncia tambĂ©m Ă© forma de amor.
EntĂŁo eu comecei a olhar para dentro das minhas prĂłprias ruĂnas sem desviar os olhos.
E isso doeu mais do que eu imaginava.
Porque encarar o que sobrou de nĂłs exige coragem que nĂŁo se ensina.
Eu vi minhas quedas.
Vi minhas escolhas.
Vi tudo o que eu segurei até quebrar minhas próprias mãos.
E no meio disso tudo⊠eu encontrei uma semente.
Pequena. Quase invisĂvel.
Mas viva.
E se hĂĄ algo que a vida nĂŁo consegue destruir completamente, Ă© o que ainda insiste em viver.
Foi aĂ que começou o impossĂvel.
Eu nĂŁo floresci de repente.
Florescimento nĂŁo Ă© milagre instantĂąneo.
Ă processo.
Primeiro, aprendi a respirar dentro da dor sem me afogar nela.
Depois, aprendi a ouvir meu prĂłprio silĂȘncio sem medo.
Depois, aprendi a nĂŁo pedir desculpas por existir quebrada.
E aos poucos, muito aos poucos⊠eu comecei a me reconstruir.
NĂŁo como era antes.
Mas como nunca fui.
Mais inteira na minha imperfeição.
Mais verdadeira nas minhas cicatrizes.
Mais minha.
As ruĂnas nĂŁo desapareceram.
Elas continuam aqui.
Mas agora sĂŁo base.
E sobre base também se constrói jardim.
Um dia, sem aviso, eu percebi algo estranho.
Havia flores onde antes sĂł havia dor.
NĂŁo flores grandes, nĂŁo flores perfeitas.
Mas flores reais.
Daquelas que nasceram sem permissĂŁo, sem garantia, sem promessa de durar.
Flores de resistĂȘncia.
Flores de quem sobreviveu ao prĂłprio fim.
E entĂŁo eu entendi:
Eu nĂŁo era mais sĂł ruĂna.
Eu era também renascimento.
E renascimentos nunca pedem licença para acontecer.
Eles simplesmente acontecem dentro da gente, quando a gente jå não sabe mais como continuar⊠mas continua.
Hoje, quando olho para mim, não me reconheço apenas pela dor que me formou.
Mas pela vida que insisti em manter acesa, mesmo quando tudo parecia apagado.
Ainda hĂĄ cicatrizes.
Ainda hĂĄ memĂłrias que doem quando o vento toca errado.
Mas hå também flores.
E flores nĂŁo mentem.
Elas sĂł existem onde houve coragem de permanecer.
Se alguém me perguntar onde eu floresci, eu direi:
Entre ruĂnas.
Entre tudo o que caiu, eu me levantei sem alarde.
Entre tudo o que partiu, eu permaneci comigo.
Entre tudo o que quebrou, eu me refiz em silĂȘncio.
E isso⊠isso ninguém pode tirar de mim.
Porque o que floresce depois da dor nĂŁo Ă© apenas sobrevivĂȘncia.
à transformação.
Ă vida escolhendo continuar, mesmo quando tudo dizia para parar.
E eu continuei.
đż
Se vocĂȘ me pergunta o que sou hoje, eu respondo sem hesitar:
Sou aquilo que nasceu depois do fim.
Sou o que cresceu em meio aos escombros.
Sou florescendo onde ninguém acreditava mais haver vida.
E isso basta.
#EntreRuĂnasFloresci #FlorescimentoInterior #RenascimentoDaAlma #ForçaEmSilĂȘncio #CicatrizesQueFlorescem
âPaulinha Cunhaâ
P