Fantasma.
Eu já fui tão invisível que eu ainda esqueço que eu não sou transparente como o ar
Que eu sou algo além dessa voz distante que insiste em falar
E me distrair,
E me incomodar,
Me confundir e isolar
Eu queria muito parar de pensar
É que meu sangue continua pegando fogo
Eu não vejo mais os rostos, só desenhos dispersos e soltos
Eu me perdi no meu próprio jogo e esses poemas tristes tão ficando meio toscos
Eu devo estar fazendo algo errado
Deve ter alguma peça da minha máquina que veio com defeito, mas é tarde demais
Eu não posso me devolver pra fábrica desse jeito
Eu tenho que aceitar essa condenação
Ser a estrela mais brilhante da mais escura constelação
E não porque eu quero chamar atenção, mas porque tem essa angústia que queima em mim enquanto eu vejo pessoas como vultos que me atravessam sem rumo e sem fim
São elas os fantasmas?
As pobres almas penadas?
As desconectadas?
É que eu jurava que tava tudo bem comigo
Minha esperança não aprendeu a aceitar sua morte, então eu sempre falo "eu consigo"
Minha decepção nunca entendeu que eu não sou forte, que na verdade eu só finjo
Então ela permite que eu queime em segredo
E minhas palavras são meu único esconderijo porque eu não falo quando eu mais preciso
Eu só me abro com desconhecidos
Quem me vê na rua não pode saber da minha grande dificuldade nessa tarefa chamada "viver"
Eu tenho essa leve impressão de que ninguém consegue me ver
Eu acho que sou eu o fantasma que não consegue desaparecer
Então eu sempre tento renascer.
B
Fantasma.