É

Mesquivando

Mesquivando
A neblina cai devagar,
como um véu sendo puxado sobre o mundo.
As árvores viram sombras compridas,
os caminhos deixam de ter nome,
e meus passos fazem um som oco
sobre a terra úmida.

Eu caminho
ou talvez apenas me dissolva.
Há algo em mim que quer desaparecer
dentro desse branco silencioso,
como se o frio pudesse apagar
tudo aquilo que ainda pulsa.

Mas ao mesmo tempo
há uma fome estranha.
Vontade de encontrar um rosto
no meio da névoa,
de reconhecer uma respiração próxima,
de sentir o calor da pele
atravessando o inverno.

Porque o frio da neblina
não é apenas do ar
ele também mora dentro de mim.
E então sigo perdida,
entre sumir
e procurar.

Entre desaparecer
no silêncio branco
e esperar
que duas mãos quentes
me encontrem.
No meio do campo
há uma árvore.

Sozinha, escura,
com galhos que parecem lembrar
de alguma coisa que eu também esqueci.
A neblina se prende às folhas
como segredos antigos.
Eu me aproximo.

Talvez ela tenha crescido
das palavras que nunca disse,
dos sentimentos que escondi
debaixo da terra fria do peito.
Seus frutos são silenciosos,
pesados de ausência.
E mesmo assim
algo em mim deseja provar.

Porque quem se perde na neblina
às vezes procura uma árvore
não para se abrigar
mas para entender
de onde nasceu
o próprio inverno.
Mesquivando