Nostalgia em Versos
Há dias em que a saudade acorda antes de mim,
e senta à beira da cama, em silêncio,
como quem já conhece todos os caminhos
que levam de volta ao que já não existe.
Ela me chama pelo nome antigo,
aquele que só o passado sabia pronunciar,
e me veste com lembranças
que ainda carregam o perfume de outros tempos.
Ah, nostalgia...
esse doce engano que insiste em florescer
nos jardins que já foram desfeitos,
nas mãos que já não tocam,
nos abraços que ficaram suspensos no ar.
Lembro das tardes que não pediam pressa,
do riso leve que não sabia do fim,
dos sonhos que cabiam no bolso
e ainda sobrava espaço para acreditar.
Havia uma música tocando dentro de nós,
mesmo quando o mundo lá fora era silêncio,
e cada instante parecia eterno
porque não sabíamos medir despedidas.
Hoje, recolho fragmentos de ontem
como quem junta pedaços de céu caído,
tentando reconstruir, em versos,
o que o tempo levou sem pedir licença.
Mas o tempo…
ah, o tempo nunca devolve inteiro
aquilo que ele decide levar.
Ele apenas deixa rastros,
ecos, sombras suaves de memórias
que insistem em permanecer.
E é nessas sombras que me encontro,
caminhando entre o que fui
e o que ainda tento ser.
Há um certo conforto na dor da saudade,
como se sofrer também fosse lembrar
que algo valeu a pena existir.
Porque só sente falta quem viveu de verdade,
quem mergulhou fundo sem medo de se perder,
quem fez do instante um lar
mesmo sabendo que ele não era permanente.
E então escrevo…
escrevo para não esquecer,
para manter acesa a chama
das histórias que ainda moram em mim.
Escrevo para transformar ausência em presença,
silêncio em poesia,
e saudade em eternidade.
Se um dia me perguntarem
onde guardo tudo aquilo que passou,
direi sem hesitar:
guardo no peito,
entre um verso e outro,
onde o tempo não alcança
e o amor não se desfaz.
Porque no fim…
tudo o que fomos
ainda vive,
em cada palavra que insiste em sentir.
E assim sigo,
costurando lembranças com esperança,
fazendo da nostalgia
um abrigo bonito
para aquilo que nunca deixou de ser meu.
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—Paulinha Cunha—
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