O Amor Que Ficou Sem Fim
Existe uma dor que não tem nome,
que mora no peito como hóspede eterno,
que acorda antes do sol e adormece tarde,
que sussurra no silêncio do inverno.
É a saudade vestida de amor,
é o amor disfarçado de ferida,
é tudo aquilo que eu nunca disse
e que agora late dentro da minha vida.
Eu te amei como se amar fosse fácil,
como se o coração não tivesse prazo,
como se dois corpos juntos no mesmo quarto
fossem garantia de não se despedaçar no raso.
Mas o amor mal resolvido não vai embora,
ele fica grudado nas paredes da memória,
ele aparece no cheiro de uma roupa,
numa música antiga, numa história.
Quantas vezes eu engoli o que sentia
porque tinha medo de te assustar?
Quantas noites eu chorei em silêncio
enquanto você dormia sem me escutar?
O amor que cala também sangra,
o amor que esconde também dói,
e eu fiquei tanto tempo me calando
que quando quis falar, você já foi.
Saudade é isso — não é só lembrar,
é sentir que o tempo parou em você,
é abrir a gaveta e encontrar os pedaços
de tudo aquilo que não pôde ser.
É passar na rua onde a gente andava
e sentir o chão engolir meu passo,
é rir de algo e querer te contar
e perceber que já não tenho esse espaço.
Tem dias que eu finjo que estou bem,
coloco um sorriso e saio pro mundo,
mas por dentro carrego um oceano inteiro,
escuro, pesado, infinito e profundo.
Porque amar alguém do jeito que eu amei
não se resolve com o tempo que passa,
não some com distrações ou novos abraços,
não cabe dentro de nenhuma outra taça.
Você foi a frase que eu não terminei,
o poema que ficou no meio do verso,
a melodia que aprendi de cor
mas perdi a letra no universo.
E agora vivo numa espécie de limbo,
entre o que foi e o que poderia ter sido,
entre o amor que eu senti de verdade
e o silêncio que ficou esquecido.
Não te guardo com raiva — te guardo com ternura,
com aquela dor bonita que só quem amou conhece,
com a certeza de que o que vivemos juntos
foi real demais pra simplesmente desaparecer.
Te guardo como se guarda uma carta antiga,
com cuidado, com medo de rasgar,
com a consciência de que certas histórias
a gente nunca consegue realmente terminar.
E se um dia você ler essas palavras
e sentir o coração apertar no peito,
saiba que não escrevi por mágoa —
escrevi porque amar foi o maior dos feitos.
Porque você passou por mim deixando rastros,
e rastros não se apagam com vontade,
eles viram poesia, viram choro, viram noite,
viram essa dor bonita chamada saudade.
Então fica aqui, guardado nesse verso,
no único lugar onde ainda posso te ter,
entre rimas e estrofes e silêncios,
entre tudo que foi e o que não pôde ser.
Porque o amor que dói na alma assim
é o amor que nunca foi embora de verdade —
é o amor que ficou sem fim.
— Paulinha Cunha—
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