o dia que o ceu era abertođź’Ś
Quando eu era criança, o mundo parecia caber dentro do quintal.
O céu era maior, o tempo mais lento, e as aves faziam parte do meu dia como velhas amigas silenciosas. Eu acreditava que elas entendiam tudo o que eu sentia, mesmo aquilo que eu ainda não sabia explicar.
Eu sentava no chão, observando seus voos curtos, suas asas abertas como desenhos vivos no ar. Às vezes, falava com elas em pensamento. Contava meus medos pequenos, meus sonhos simples, minhas vontades que ainda não tinham nome. E elas ficavam ali, pousadas perto, como se escutassem com atenção.
A infância tinha som de risadas soltas e de asas batendo.
Tinha cheiro de terra, de vento leve, de liberdade. Eu corria sem olhar para trás, sem imaginar que um dia aprenderia o peso das despedidas. Naquele tempo, tudo era começo, tudo era esperança.
As aves me ensinavam sem palavras.
Mostravam que cair não era o fim, porque sempre havia outro voo. Que o céu não precisava ser tocado para ser acreditado. Que existir podia ser simples.
Com o passar dos anos, cresci.
Os dias ficaram mais apressados, os silĂŞncios mais longos. Aprendi palavras difĂceis, sentimentos confusos, e perdi um pouco daquela leveza que sĂł a infância conhece. Mas as aves continuaram voltando.
Hoje, quando uma ave cruza meu caminho, algo em mim se acalma.
Ela me lembra da criança que fui, daquela versão minha que acreditava no bem, que confiava no amanhã, que via magia nas coisas pequenas. É como se, por um instante, o tempo recuasse e eu pudesse respirar sem medo outra vez.
Entendo, agora, que a infância não foi embora.
Ela apenas mudou de lugar. Vive escondida nas memórias, nos olhares para o céu, nos momentos em que o coração pede silêncio e paz.💌
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