O Funeral da Esperança
Me perguntam se ainda vivo.
Respondo: depende do dia.
Há manhãs em que o sol nasce dentro do meu peito
mas ele sangra antes de chegar ao meio-dia.
Eu caminho com os ossos rachados de silêncio,
com os olhos cheios de mortos que só eu enxergo.
Sorrio por reflexo, como uma ferida aberta tentando parecer boca.
O tempo me carrega pelos cabelos
enquanto eu mordo o chão pedindo pra ficar.
Já não tenho medo da morte.
Tenho medo da vida disfarçada de anjo,
me oferecendo flores que fedem a velório.
Medo de respirar e sentir o ar me esfaquear por dentro,
de sonhar e acordar com o sonho apodrecendo ao lado da cama.
Dentro de mim há um quarto trancado
nele mora o som de um coração que desaprendeu o ritmo.
As paredes sussurram nomes que esqueci de esquecer.
A cada batida, um eco grita: ninguém vem.
E o ninguém vem mesmo.
E senta comigo.
E me abraça com braços de vazio.
O amor me passou a perna num beco sujo.
Deixou meu corpo em versos e levou minha alma pra beber.
Ele tem o gosto da primeira lágrima e o cheiro do último adeus.
E ainda assim, o chamo pelo nome
como quem chama a própria ruína pra dançar.
Às vezes escrevo pra não enlouquecer.
Outras, escrevo pra enlouquecer mais bonito.
Minhas palavras são cacos de um espelho que quebrou de tanto refletir o nada.
E nelas, eu me corto até lembrar que sinto.
Deus me vê ou finge.
Talvez Ele tenha desistido de mim no meio de um bocejo.
Eu ainda rezo, mas as orações voltam pingando ferrugem.
O céu é uma boca costurada.
O inferno é aqui dentro
na parte do peito onde a esperança morreu de sede.
E se um dia me encontrarem
andando sozinho, com a alma pela metade
não me toquem.
Eu não sangro mais, evaporo.
Sou o resto de um grito que perdeu a garganta.
Sou o eco de um coração que explodiu em silêncio.
Sou o funeral da esperança.
E o mundo
é o cemitério onde me deitei pra dormir
N