đđ„ O Peso do Que Fui đ„đ
Existem noites em que o silĂȘncio pesa mais que o mundo.
Noites em que a memĂłria abre suas portas enferrujadas e me obriga a caminhar por corredores onde ainda ecoam os passos de quem partiu.
E eu caminho.
Caminho devagar.
Porque cada lembrança tem espinhos.
Porque cada saudade tem dentes.
Porque cada pedaço do que fui ainda vive escondido entre as ruĂnas do meu coração.
Hå um peso em carregar versÔes antigas de nós mesmos.
Um peso que ninguĂ©m vĂȘ.
Um peso que nĂŁo aparece nas fotografias.
Um peso que nĂŁo se explica em palavras simples.
Ă o peso dos sonhos que morreram antes de nascer.
Ă o peso das promessas que o vento levou.
à o peso dos abraços que nunca voltaram.
à o peso do amor que ficou sem endereço.
Ăs vezes me pergunto onde foi parar aquela pessoa que eu era.
Aquela que acreditava que tudo duraria para sempre.
Aquela que escrevia futuros inteiros dentro de um simples olhar.
Aquela que fazia planos enquanto o coração dançava sem medo.
Talvez ela tenha se perdido em alguma despedida.
Talvez tenha ficado presa em algum adeus mal resolvido.
Talvez ainda esteja esperando alguém voltar.
E dĂłi.
Meu Deus...
Como dĂłi.
DĂłi lembrar do que nĂŁo aconteceu.
DĂłi lembrar do que aconteceu demais.
DĂłi lembrar dos dias felizes.
Mas dĂłi ainda mais lembrar que eles acabaram.
Existem saudades que nĂŁo passam.
Elas apenas aprendem a morar dentro da gente.
Viram parte da decoração da alma.
Sentam-se ao nosso lado durante o café.
Dormem conosco durante a madrugada.
E despertam antes mesmo do nascer do sol.
A saudade nĂŁo grita.
Ela sussurra.
E talvez seja por isso que machuca tanto.
Porque sua voz atravessa todas as nossas defesas.
Porque ela conhece os caminhos secretos do coração.
Porque ela sabe exatamente onde tocar para nos fazer sangrar por dentro.
Quantas vezes tentei esquecer?
Quantas vezes tentei seguir em frente?
Quantas vezes sorri enquanto uma tempestade acontecia dentro de mim?
Perdi a conta.
Mas existem amores que nĂŁo acabam.
Eles apenas mudam de forma.
Viram lembranças.
Viram cicatrizes.
Viram poemas.
Viram lĂĄgrimas escondidas atrĂĄs de sorrisos educados.
Viram o nome que evitamos pronunciar.
Viram a ausĂȘncia que nunca deixa de existir.
E eu carrego tudo isso.
Carrego os silĂȘncios.
Carrego os arrependimentos.
Carrego os "e se".
Carrego as palavras que nunca foram ditas.
Carrego os beijos que ficaram presos no tempo.
Carrego os abraços que a vida roubou.
Carrego os sonhos que nĂŁo encontraram destino.
Carrego vocĂȘ.
Mesmo quando tento nĂŁo carregar.
Carrego porque amar nem sempre termina quando a histĂłria termina.
Ăs vezes o amor continua vivendo sozinho.
Perdido.
Sem rumo.
Sem resposta.
Sem volta.
E nas madrugadas mais difĂceis, quando o mundo inteiro parece dormir, eu converso com as minhas lembranças.
Pergunto se vocĂȘ tambĂ©m sente falta.
Pergunto se em algum momento o seu coração procurou pelo meu.
Pergunto se ainda existe alguma parte de mim vivendo dentro de vocĂȘ.
Mas o silĂȘncio nunca responde.
E talvez essa seja a resposta.
Talvez algumas histĂłrias tenham sido feitas apenas para doer.
Talvez alguns encontros tenham nascido para ensinar despedidas.
Talvez alguns amores tenham vindo ao mundo apenas para nos transformar.
E transformam.
Transformam tanto que, quando olhamos para trĂĄs, jĂĄ nĂŁo reconhecemos quem fomos.
Mas ainda sentimos o peso.
O peso das escolhas.
O peso das ausĂȘncias.
O peso dos erros.
O peso das saudades.
O peso do amor que ficou.
O peso do que fui.
E hoje entendo que nĂŁo existe maneira de apagar completamente aquilo que nos marcou.
Algumas pessoas passam.
Outras permanecem para sempre dentro de nĂłs.
Mesmo longe.
Mesmo ausentes.
Mesmo impossĂveis.
Porque certas almas deixam impressÔes eternas.
Porque certos sentimentos desafiam o tempo.
Porque certas lembranças continuam florescendo até mesmo nos terrenos mais devastados.
E eu sigo.
Com minhas cicatrizes.
Com minhas saudades.
Com meus silĂȘncios.
Com meus amores inacabados.
Com tudo aquilo que perdi.
Com tudo aquilo que ainda guardo.
E com o peso de quem fui.
Porque algumas versÔes de nós nunca morrem.
Elas apenas permanecem sentadas em algum canto da alma...
esperando que um dia a saudade pare de doer.
Mas enquanto isso nĂŁo acontece...
eu transformo a dor em poesia.
E deixo que cada palavra carregue aquilo que meu coração nunca conseguiu esquecer.
âPaulinha Cunhaâ
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