O Que Eu Escolhi Perder
Eu quis o mundo
as noites longas, as portas abertas,
o gosto de tudo que ainda não tinha nome.
E você era calmo demais
pra caber na pressa que eu chamava de viver.
Eu disse “depois”,
como se o tempo fosse um objeto
guardado numa gaveta qualquer.
Como se você fosse ficar ali,
me esperando voltar de mim mesma.
Mas você não ficou.
E não foi falta de amor
foi excesso de estrada,
fome de tudo,
cegueira bonita de quem acha
que sempre dá pra voltar.
Não deu.
Hoje eu tenho histórias,
lugares, rostos,
memórias que não sabem o seu nome.
Tenho o mundo que eu quis
e ele não me abraça como você abraçava.
Às vezes eu me pego imaginando
a vida que não aconteceu:
o café dividindo silêncio,
as brigas pequenas que terminariam em riso,
o jeito que você envelheceria
do lado do que eu poderia ter sido.
Mas essa vida não me pertence.
Ela ficou no exato momento
em que eu escolhi ir
em vez de ficar.
E agora eu entendo
tarde, como sempre
que viver mais
nem sempre é viver melhor.
Porque de tudo que eu ganhei lá fora,
nada me devolve
o que eu perdi aqui dentro.
E você…
mesmo ausente,
ainda é o único lugar
onde eu realmente fiquei.
Rebeca Andrade