O Último Sussurro
Eu ainda me lembro
do jeito que você dizia meu nome
como se cada letra tivesse sido feita
apenas para morar na sua boca.
E talvez seja por isso
que eu nunca mais consegui ouvir meu próprio nome
sem sentir o coração sangrar em silêncio.
Porque existem pessoas
que vão embora…
mas deixam a voz delas presa dentro da gente.
Você foi assim.
Um amor que não terminou direito.
Um adeus sem ponto final.
Um abraço interrompido pela vida.
Um sentimento que ficou aberto
como uma ferida esquecida debaixo da chuva.
E eu tentei seguir.
Deus sabe o quanto eu tentei.
Tentei apagar nossas conversas.
Tentei não procurar você em cada música triste.
Tentei não comparar outros olhos aos teus.
Tentei não lembrar do som da sua risada
nas madrugadas em que o mundo inteiro dormia
e eu lutava contra a saudade sozinho.
Mas saudade não respeita tentativa.
Ela entra sem bater.
Ela desmonta a alma.
Ela senta no peito
e faz morada nos lugares mais frágeis do coração.
Às vezes eu estava sorrindo…
e de repente você aparecia dentro da minha memória
como um vendaval antigo.
Então tudo doía de novo.
O café perdia o gosto.
As músicas ficavam pesadas.
A noite parecia longa demais.
E o silêncio…
ah, o silêncio gritava seu nome em todos os cantos.
Porque ninguém me contou
que sentir falta de alguém
podia cansar mais do que carregar o mundo inteiro nas costas.
Ninguém me avisou
que amores mal resolvidos
viram fantasmas.
E você virou o meu.
Eu vejo você em ruas aleatórias.
Em perfumes desconhecidos.
Em casais felizes demais.
Em finais de tarde.
Em céus nublados.
Em cartas que nunca tive coragem de enviar.
Você está em tudo.
E talvez isso seja a pior parte.
Porque eu nunca soube exatamente
se você também sentia minha falta
ou se fui apenas eu
quem transformou o amor em eternidade.
Quantas vezes você pensou em voltar?
Quantas vezes segurou o celular
e desistiu de me procurar?
Quantas vezes quase escreveu “sinto sua falta”…
mas deixou o orgulho vencer?
Eu queria saber.
Só para entender
se esse amor destruiu dois corações
ou apenas o meu.
Tem noites
em que eu converso com o teto
como se ele pudesse responder minhas perguntas.
“Por que a gente não deu certo?”
“Por que o amor às vezes não basta?”
“Por que algumas pessoas chegam prometendo infinito
e depois desaparecem como fumaça?”
E o teto nunca responde.
Só o silêncio responde.
E o silêncio sempre traz você.
Talvez amar seja isso:
aprender a sobreviver
mesmo carregando alguém que nunca saiu da nossa alma.
Porque você saiu da minha vida…
mas nunca saiu de mim.
Ainda existem partes suas aqui.
No meu jeito de amar.
No meu medo de perder pessoas.
Na dificuldade que tenho de confiar.
Na saudade que sinto até daquilo
que me machucou.
É estranho, não é?
Sentir falta de algo
que também nos destruiu.
Mas o amor tem dessas crueldades bonitas.
Ele machuca…
e mesmo assim a gente continua querendo mais um abraço.
Mais uma conversa.
Mais cinco minutos ao lado da pessoa.
Eu daria tudo
para ouvir sua voz mais uma vez.
Nem precisava ser um “eu te amo”.
Poderia ser qualquer coisa.
Qualquer frase simples.
Qualquer palavra pequena.
Porque às vezes
o que mais dói
não é perder alguém…
É perceber
que a última conversa aconteceu
sem que a gente soubesse
que seria a última.
E desde então
eu vivo preso naquele instante.
No último olhar.
Na última despedida.
No último toque.
No último sussurro.
Você lembra?
Porque eu lembro de tudo.
Lembro do jeito que seus olhos brilhavam quando me via.
Lembro da forma como sua mão encaixava na minha.
Lembro das promessas.
Dos planos.
Dos sonhos que construímos como duas crianças inocentes acreditando no para sempre.
E talvez o amor tenha sido exatamente isso:
dois corações tentando vencer o tempo.
Mas o tempo venceu.
E levou você embora.
Só não conseguiu levar o que eu sinto.
Por isso ainda escrevo sobre você.
Porque existem dores
que não cabem dentro do peito.
Então elas transbordam em palavras.
Talvez alguém lendo isso agora
também esteja tentando esquecer alguém.
Talvez alguém esteja chorando escondido no banheiro.
Talvez alguém esteja olhando mensagens antigas
enquanto finge que superou.
E se você for essa pessoa…
eu espero que saiba:
Você não está sozinho.
Existem amores
que deixam cicatrizes tão profundas
que o coração nunca volta a ser o mesmo.
Mas ainda assim…
a gente continua vivendo.
Mesmo quebrados.
Mesmo cansados.
Mesmo sentindo saudades que doem até na alma.
E sabe o que é pior?
Uma parte de mim ainda esperaria você voltar.
Mesmo depois de tudo.
Mesmo depois das lágrimas.
Mesmo depois das noites vazias.
Mesmo depois de aprender
que algumas pessoas amam…
mas não ficam.
Porque o amor verdadeiro
não desaparece da noite para o dia.
Ele permanece escondido
nos detalhes mais silenciosos da vida.
Num perfume.
Numa música.
Num pôr do sol.
Num velho texto esquecido.
Ou naquele instante antes de dormir
em que o coração baixa a guarda
e a saudade finalmente vence.
E quando isso acontece…
eu ainda escuto você.
Como um eco distante.
Como um pedaço do passado
sussurrando dentro de mim.
O último sussurro.
A última lembrança.
O último amor que nunca acabou de verdade.
—Paulinha Cunha—
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