O Vento que Leva
O vento chegou sem avisar,
sussurrando segredos que nem o tempo ousou guardar.
Ele atravessou minha janela,
tocou minha pele,
e levou de mim aquilo que eu ainda nem sabia que doía.
Era leve…
mas carregava o peso das despedidas não ditas,
dos abraços que nunca aconteceram,
dos “fica” que morreram na garganta.
O vento que leva…
leva risos esquecidos nas tardes douradas,
leva promessas feitas sob céus estrelados,
leva nomes que um dia foram lar
e hoje são apenas eco.
Ele dança entre os fios do meu cabelo,
como quem conhece cada pensamento meu,
como quem lê as páginas rasgadas da minha alma
e entende cada silêncio que eu nunca consegui explicar.
Ah, esse vento…
cruel na sua liberdade,
bonito na sua partida.
Ele não pede permissão —
ele simplesmente leva.
Levou teus olhos dos meus,
teu toque da minha pele,
teu cheiro das minhas memórias.
Levou até a versão de mim
que só existia quando você estava aqui.
E eu fiquei…
com o vazio ecoando nos cantos do peito,
com a saudade moldando minha respiração,
com o coração tentando aprender
a bater sem você.
Mas o vento não leva só dor.
Ele também leva o que pesa,
o que prende,
o que impede a alma de florescer.
Ele levou minhas lágrimas antigas,
meus medos guardados,
meus pedaços quebrados que eu insistia em juntar.
E no meio desse caos invisível,
ele deixou algo novo…
um espaço.
Um silêncio diferente.
Uma chance.
Porque o vento que leva
também ensina a soltar.
Ensina que nem tudo foi feito para ficar,
que algumas histórias são feitas de passagem,
como folhas que dançam por um instante
antes de tocar o chão.
E talvez…
talvez o amor também seja assim:
um sopro intenso,
um instante eterno,
um vento que vem…
e depois vai.
Hoje, eu não tento mais segurar o vento.
Eu fecho os olhos,
abro o peito
e deixo que ele leve o que precisar levar.
Porque aprendi…
que tudo aquilo que o vento leva,
de alguma forma,
já não era mais meu.
E o que for pra ficar…
nem o tempo,
nem o mundo,
nem o próprio vento
será capaz de arrancar.
—Paulinha Cunha—
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