V

Ode a chuva

Ode a chuva
Chove, chuva...
Chove.

Assenta-te como um lençol ao corpo
e faz tua magia:
renova a água de lagos e rios.
Nutre e abençoa flora e seres,
e deixa que as impressões humanas te chamem de triste
enquanto fazes silenciosamente teu trabalho.

Chove e chove sem fim.
Amo-te como não amei mulher alguma.
E deixo que as gotas retumbantes no telhado
fundam-se ao furor dos sentidos e me ancorem na beleza deste momento.

Estou em júbilo
porque existes e por lembrar-me de existir na tua simplicidade.
Sou o que sou, sinto o que vivo.
Olho para o céu e vejo:
o céu é vida,
as gotas, os seres,
e a queda das gotas, a trajetória da vida.

Chove.
Segue exemplificando-me a brevidade da vida em inegável simplicidade:
cada gota é um ciclo de vida e morte.
Quantas gotas caíram?
E quantos amigos se foram?
Incontáveis....
Incontáveis...

Pergunto-me, ó chuva,
devido ao exemplo que me deste,
por que deveria levar as coisas tão a sério
se tudo é breve e passageiro?

Dá-me força pra resistir as tempestades e enxurradas da vida,
por manter em mente o valor desta lição.

Chove, chuva, chove.
Teu barulho é silêncio.
A água em mim se apazigua
e por consequência todo eu se torna líquido e fluido.
Sou todo água e ao mesmo tempo não sou outra coisa
senão a consciência da água, que se desapega de si mesma
e num momento de alegria desinibida
deixo a queda da vida me levar. Sinto a vida na morte e a morte na vida.
Sou mutuamente a queda da gota e a dança da caneta.

A água se espatifa no chão e micro-gotas se espalham na vegetação
e nutrem plantas por nascer.
A caneta dança no papel e forma versos que nutrem as mentes dos que leem
como uma chuva de palavras em transição constante e consciente,
transformando e aceitando emoções.