Onde a Alma se Perde
Há lugares que não existem no mapa,
mas moram dentro do peito.
São esquinas da saudade,
ruas feitas de lembranças,
becos silenciosos onde a alma se perde
sem perceber o caminho de volta.
Minha alma se perdeu
naquilo que eu não disse,
nas palavras que engoli por medo,
nos sentimentos que escondi
para não parecer fraca,
quando, na verdade,
era só humana demais.
Ela se perdeu
no excesso de entrega,
no amor dado sem medida,
no abraço oferecido a quem
nunca soube acolher.
Se perdeu quando acreditou
que amar bastava
para ser amado de volta.
A alma se perde
quando a gente insiste
em permanecer onde dói,
onde o silêncio grita,
onde a ausência pesa mais
do que qualquer presença vazia.
Ela se perde quando ficamos
por apego, por medo,
por lembrança do que foi
e não do que é.
Há dias em que a alma se perde
no cansaço de ser forte.
No sorriso forçado,
na aparência de “está tudo bem”,
quando por dentro tudo desmorona.
Ela se perde quando ninguém pergunta
como estamos de verdade
e aprendemos a responder “bem”
mesmo sangrando por dentro.
Minha alma se perdeu
quando aprendi a me calar
para não incomodar,
quando aceitei migalhas
achando que era amor,
quando confundi atenção com carinho
e presença com permanência.
Ela se perdeu
nos sonhos adiados,
nos planos engavetados,
nas versões de mim
que deixei morrer
para caber na vida de alguém.
A alma se perde
quando a gente se abandona.
Quando colocamos todos à frente
e deixamos a nós mesmos por último.
Quando cuidamos de todos
e esquecemos de nos curar.
Ela se perde
no excesso de lembranças,
em noites longas demais,
em pensamentos que não dormem,
em lágrimas que caem silenciosas
para não acordar ninguém,
porque ninguém percebe
que estamos desmoronando.
Minha alma se perdeu
quando eu quis salvar alguém
que nunca quis ser salvo.
Quando tentei ser porto
para quem só sabia ser tempestade.
Quando acreditei que amor
era suportar a dor.
Mas também aprendi algo
no lugar onde a alma se perde.
Aprendi que esse lugar
é, muitas vezes, o início do reencontro.
Porque só quando a alma se perde
é que a gente começa
a se procurar de verdade.
É ali, no fundo do cansaço,
no limite da dor,
no silêncio mais profundo,
que a alma sussurra:
“Volta para casa.”
E casa é dentro.
Casa é se escolher.
Casa é se respeitar.
Casa é aprender a dizer não
sem culpa,
é aprender a partir
sem se odiar.
A alma começa a se encontrar
quando paramos de mendigar amor,
quando entendemos que reciprocidade
não é favor,
é necessidade.
Quando aceitamos que nem tudo
que amamos nos faz bem.
Ela se encontra
quando choramos o que precisa ser chorado,
quando soltamos o que precisa ir,
quando aceitamos que algumas perdas
são livramentos disfarçados de dor.
A alma se reencontra
quando aprendemos a ficar sozinhos
sem nos sentirmos vazios,
quando fazemos da própria companhia
um abrigo seguro,
quando entendemos que paz
vale mais do que qualquer amor confuso.
Hoje, se minha alma se perdeu,
foi para aprender o caminho de volta.
Foi para entender que eu mereço mais,
que não preciso implorar por afeto,
que não devo diminuir quem sou
para caber em ninguém.
Onde a alma se perde,
ela também renasce.
Mais forte,
mais consciente,
mais inteira.
Porque quem já se perdeu
dentro de si
nunca mais aceita viver
pela metade.
E se você sente
que sua alma anda perdida,
não se culpe.
Às vezes, perder-se
é só o primeiro passo
para finalmente
se encontrar.
✨
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