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Quando Tudo Foge

Quando Tudo Foge

Quando tudo foge,
não é só o mundo que se afasta—
é como se o tempo abrisse as mãos
e deixasse cair, uma a uma,
as certezas que eu chamava de minhas.

As horas passam descalças,
pisando leve sobre memórias ainda quentes,
e eu fico aqui,
tentando costurar os pedaços
de um silêncio que grita dentro do peito.

Quando tudo foge,
até o espelho se recusa a me reconhecer,
e meus olhos, antes tão cheios de vida,
carregam agora o peso
de perguntas sem respostas.

É estranho…
como o vazio pode ser tão barulhento,
como a ausência pode ocupar tanto espaço,
como a saudade pode doer
mesmo quando ninguém prometeu ficar.

E eu me pergunto, em noites longas,
se fui eu que deixei escapar,
ou se foram os sonhos que se cansaram de mim,
e partiram sem olhar para trás,
como quem nunca pertenceu.

Quando tudo foge,
o coração aprende a caminhar sozinho,
mesmo tropeçando em lembranças,
mesmo sangrando em cada passo,
mesmo querendo, desesperadamente, voltar.

Mas não há volta.
Há apenas esse agora,
feito de ausências e coragem,
de lágrimas que brilham
como fios de luz na escuridão.

E talvez seja isso…
talvez fugir também seja um jeito de ensinar,
de mostrar que o que fica
não é o que seguramos com força,
mas o que permanece mesmo depois da perda.

Quando tudo foge,
eu fico.
Mais frágil, mais humano,
mais verdadeiro do que nunca.

E no meio desse caos silencioso,
eu descubro que ainda respiro,
que ainda sinto,
que ainda posso recomeçar—
mesmo com o coração em pedaços.

Porque no fim,
quando tudo foge…
o que sobra
é quem a gente realmente é.

—Paulinha Cunha—

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