Rastros do passado
Há um bolo sobre a mesa da memória,
simples, morno, quase esquecido —
mas ainda carrega o cheiro
dos dias em que o amor era inteiro.
O abraço…
ah, aquele abraço antigo
que ainda mora nos meus ombros
como se o tempo tivesse falhado em partir.
Ele volta nos silêncios,
nos cantos da casa,
nas tardes que doem sem motivo.
Fizemos uma viagem — lembra?
Não só de estradas,
mas de promessas que não sabiam o fim.
Rimos como quem nunca aprenderia a perder,
como quem acreditava
que o amor bastava.
Mas vieram os dias difíceis,
pesados como chuva que não passa,
e o coração aprendeu
que amar também é suportar ausências
mesmo quando alguém ainda está.
Tudo foi — e ainda é —
pelo bem maior que inventamos juntos,
esse nome bonito que damos
ao que nos mantém de pé
mesmo quebrados.
Porque o amor…
o amor não é leve como diziam.
Ele pesa, marca, rasga, transforma.
É um corte doce
que nunca cicatriza por completo.
E ainda assim,
entre os rastros do passado,
eu escolheria sentir de novo —
o gosto do bolo,
o calor do abraço,
a viagem sem volta.
Porque até na dor,
amar você
foi o que me fez inteiro.
J