🌸 Ressurgi Para Mim 🌸
Houve um tempo em que caminhei como os jardins esquecidos dos antigos palácios imperiais, onde as flores continuavam vivas, mas já não havia quem contemplasse sua beleza.
Carreguei silêncios como quem carregava pergaminhos antigos escritos pela própria dor.
Sorri quando meu coração chorava.
Abracei despedidas como se fossem destinos.
Esperei por mãos que nunca voltaram.
Esperei por vozes que jamais pronunciaram meu nome com a delicadeza que eu merecia.
E, durante muito tempo, pensei que viver era apenas sobreviver às tempestades.
Mas o tempo...
Ah, o tempo...
O tempo é um imperador invisÃvel.
Não pede licença.
Não aceita súplicas.
Não volta atrás.
Ele apenas ensina.
E foi quando minhas lágrimas já haviam regado todos os desertos da minha alma que compreendi uma verdade antiga, escondida entre as muralhas do coração:
Ninguém pode devolver aquilo que abandonamos dentro de nós mesmos.
Foi então que deixei de procurar respostas nos olhos alheios.
Deixei de mendigar afetos.
Deixei de acreditar que minha felicidade precisava morar na casa de outra pessoa.
Comecei a reconstruir meu próprio império.
Pedra por pedra.
Sonho por sonho.
Respiração por respiração.
Como uma imperatriz que retorna ao seu reino depois de longos anos de exÃlio.
Sem aplausos.
Sem multidões.
Sem coroas.
Apenas com coragem.
Descobri que a alma também conhece o caminho de volta.
Mesmo depois das guerras.
Mesmo depois das perdas.
Mesmo depois das noites que pareciam eternas.
Cada cicatriz tornou-se uma inscrição dourada em meu destino.
Cada queda ensinou uma nova forma de permanecer de pé.
Cada despedida abriu espaço para um reencontro muito mais importante:
O encontro comigo.
Olhei para o espelho...
E, pela primeira vez, não procurei defeitos.
Procurei minha essência.
Aquela menina que um dia acreditou em jardins infinitos.
Aquela mulher que atravessou tempestades sem perceber que carregava o próprio sol dentro do peito.
Entendi que ninguém floresce vivendo apenas para agradar o mundo.
As árvores antigas não pedem permissão para crescer.
Os rios não pedem desculpas por seguirem seu curso.
O amanhecer nunca pergunta se pode nascer.
Então por que eu deveria pedir licença para existir?
Passei a vestir minha alma com a serenidade dos antigos impérios.
Aprendi que verdadeira grandeza não está nas riquezas.
Está na paz.
Está na consciência tranquila.
Está na capacidade de continuar oferecendo luz, mesmo depois de atravessar a escuridão.
Hoje caminho diferente.
Não porque a vida deixou de machucar.
Mas porque aprendi que nenhuma dor pode permanecer para sempre onde existe esperança.
As lembranças ainda existem.
Os ventos ainda sopram.
As saudades ainda visitam.
Mas já não encontram a mesma pessoa.
Porque aquela que chorava por abandono aprendeu a permanecer ao seu próprio lado.
Aquela que implorava amor descobriu que o primeiro abraço precisava nascer dentro do próprio coração.
Hoje não corro atrás do que deseja partir.
Não prendo quem escolheu ir.
Não diminuo minha luz para caber na sombra de ninguém.
Aprendi que o céu nunca pede desculpas por ser infinito.
Nem as estrelas escondem seu brilho para confortar a noite.
Então também decidi brilhar.
Mesmo que incomode.
Mesmo que duvidem.
Mesmo que não compreendam.
Porque flores não deixam de florescer apenas porque alguns preferem espinhos.
Hoje minhas raÃzes alcançam lugares onde o medo jamais pisaria.
Minha coragem veste armaduras invisÃveis.
Minha esperança segura uma espada feita de fé.
Meu coração tornou-se um trono onde apenas a paz pode governar.
E se um dia a tristeza voltar...
Ela encontrará portas abertas.
Mas não encontrará morada.
Porque agora sei que tudo passa.
As estações passam.
As tempestades passam.
Os invernos passam.
As lágrimas passam.
Até mesmo as noites mais longas se rendem diante da primeira luz da manhã.
Foi assim que ressurgi.
Não pelas mãos de alguém.
Nem pelas promessas do mundo.
Ressurgi porque decidi acreditar que ainda existia vida dentro de mim.
Ressurgi porque compreendi que a alma jamais esquece como renascer.
Ressurgi porque descobri que meu coração não era um campo de ruÃnas.
Era um jardim esperando coragem para florescer novamente.
E agora caminho sem medo.
Com a calma dos rios antigos.
Com a força das montanhas.
Com a delicadeza das cerejeiras que florescem mesmo sabendo que suas pétalas um dia cairão.
Porque a verdadeira beleza nunca esteve em permanecer igual.
Sempre esteve na coragem de recomeçar.
Hoje meu maior amor não é aquele que promete eternidade.
É aquele que encontro todas as manhãs quando olho para mim mesma e reconheço a mulher que sobreviveu a todas as tempestades.
A mulher que caiu.
Levantou.
Aprendeu.
Perdoou.
Sorriu novamente.
E, acima de tudo...
Ressurgiu para si.
— Paulinha Cunha —
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