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Sou Minha Própria Casa Houve um tempo em que procurei abrigo em corações que…

Sou Minha Própria Casa

Houve um tempo em que procurei abrigo
em corações que não sabiam permanecer.

Bati em portas que se abriram apenas por um instante,
sentei-me em jardins que floresciam somente na primavera,
e construí sonhos sobre promessas
que o vento levou antes mesmo do amanhecer.

Por muito tempo,
acreditei que a felicidade morava em alguém.
Que a paz tinha outro nome.
Que o amor precisava chegar de fora
para preencher os espaços vazios que existiam dentro de mim.

Mas os anos ensinaram
o que a pressa nunca permitiu compreender.

Ensinaram que algumas partidas
não são castigos,
são caminhos.

Que certas despedidas
não levam embora a nossa luz,
apenas revelam onde ela sempre esteve.

E foi depois de tantas tempestades,
de tantas noites conversando com minhas próprias lágrimas,
de tantos silêncios que pareciam não ter fim,
que encontrei algo precioso.

Encontrei a mim.

Não a versão que o mundo esperava.
Não a pessoa moldada pelas opiniões dos outros.
Não aquela que vivia tentando caber em lugares pequenos.

Encontrei a mulher que existia por trás dos medos.

Aquela que continuou caminhando
mesmo quando os pés estavam cansados.

Aquela que continuou acreditando
mesmo quando tudo parecia impossível.

Aquela que recolheu os próprios pedaços
sem aplausos,
sem testemunhas,
sem promessas de recompensa.

E foi então que compreendi:

Eu não precisava procurar uma casa.

Eu era a casa.

Minha própria morada.

Meu próprio refúgio.

Meu próprio porto seguro.

Aprendi a decorar minhas cicatrizes
como quem pendura quadros raros nas paredes da alma.

Aprendi a regar minhas esperanças
mesmo durante os períodos de seca.

Aprendi a sentar comigo mesma
sem medo do silêncio.

Porque o silêncio já não era solidão.

Era encontro.

Era abraço.

Era conversa.

Era cura.

Hoje sei que existem pessoas que chegam
para iluminar nossos caminhos,
mas nenhuma delas pode substituir
a luz que precisamos acender dentro de nós.

Porque quando fazemos morada em nós mesmos,
não mendigamos afeto.

Compartilhamos amor.

Não imploramos presença.

Valorizamos companhia.

Não tememos a partida.

Respeitamos os ciclos.

E quando alguém decide ficar,
não fica para nos completar.

Fica para caminhar ao nosso lado.

Há uma diferença enorme entre precisar e escolher.

E eu escolhi a mim.

Escolhi minha paz.

Escolhi minhas verdades.

Escolhi respeitar minhas feridas
e celebrar minhas vitórias.

Escolhi não me abandonar mais.

Hoje,
quando o mundo faz barulho demais,
eu volto para dentro.

Quando as decepções aparecem,
eu volto para dentro.

Quando a saudade aperta,
eu volto para dentro.

Porque descobri que existe um lugar
onde nenhuma tempestade consegue destruir.

Um lugar construído com coragem,
resiliência,
esperança
e amor-próprio.

Esse lugar sou eu.

Minha própria casa.

Meu próprio lar.

Meu próprio recomeço.

E talvez a maior liberdade da vida
não seja encontrar alguém que nos salve.

Talvez seja descobrir
que sobrevivemos a tudo aquilo
que acreditávamos não suportar.

Talvez seja perceber
que a força que procuramos nos outros
sempre esteve escondida dentro de nós.

Talvez seja entender
que o amor mais importante
não é aquele que chega.

É aquele que permanece.

E eu permaneço.

Permaneço em mim.

Permaneço inteira.

Permaneço forte.

Permaneço viva.

Porque depois de tantas buscas,
de tantos desencontros,
de tantas estradas percorridas,

finalmente cheguei.

Cheguei em mim.

E descobri que,
entre todas as casas que tentei construir no mundo,

a mais bonita delas
sempre foi meu próprio coração.

—Paulinha Cunha—

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